Pensar o Turismo nos remete a pensar em quê, mais especificamente: uma prática sócio-cultural, ou um fenômeno social a ser estudado por pesquisadores e cientistas sérios e competentes?
Aqui está uma grande questão, que merece resposta. Ao longo do texto busco dar respostas para outras questões que não estão diretamente relacionadas a esta última, mas que darão a possibilidade de uma maior compreensão do que acabo de questionar.
Talvez a mais importante e necessária pergunta a ser feita por quem pensa em ingressar numa faculdade ou curso técnico de Turismo, seja esta: “Do que se trata o Turismo?”.
Outras perguntas que os novatos ingressantes dos cursos de Turismo normalmente se deparam são: “Quem se forma em Turismo é o que: Bacharel em Turismo?; Técnico em Turismo?; Turismólogo?; (ou ainda) Turista?”
Temos então uma questão considerada primária e, logo depois, as consideradas secundárias. Alguém arrisca um palpite? Isso é o que tentarei fazer por aqui, quixostecamente, é claro.
Mas antes de buscar uma boa resposta sobre do que se trata o Turismo, considero importante um outro ponto conceitual, dividido aqui em dois grandes tópicos, através dos quais talvez consiga responder já a alguns elementos relativos às questões secundárias. Os tópicos criados são: (1) Turismo enquanto prática: formação técnica; e (2) Turismo enquanto teoria: formação acadêmica.
(1) Turismo enquanto prática: formação técnica
O Turismo uma vez entendido enquanto simples prática geradora de lucros e que se fundamenta, basicamente, pelo correto uso de determinadas técnicas, objetivando um fim que seja eficaz em si mesmo e que tenha fundamentalmente um caráter lucrativo, vem a justificar a criação e o desenvolvimento (por que não dizer a proliferação?), de cursos técnicos de formação em Turismo. (BENI, 2007, pp.104-106)
Se isso é bom ou ruim, resta a nós, pensadores do Turismo (verdadeiros Turismólogos), procurar saber. Antes, arrisco afirmar que talvez os turistas saibam melhor nos dizer sobre essa questão do que é bom ou ruim. Mas isso, deixo aos mais curiosos e menos científicos.
O que podemos afirmar, de modo geral, enquanto isso? Pode-se apontar que estes cursos não dão a devida importância ao ‘fenômeno social’ que é o Turismo desde seu advento, mesmo porque não têm isso por objetivo final.
Pode-se dizer, também, que seus objetivos se pautam apenas pelo ensino de como os futuros profissionais devem proceder em suas respectivas áreas funcionais/operacionais, as quais estão inseridas na atividade turística como um todo. Apenas isso, nada mais. (BENI, 2007, p.108)
Cursos assim definidos formam os chamados técnicos em Turismo. Estes, podem num futuro próximo, com bons estudos, virem a se tornar bons ‘Turismólogos’.
(2) Turismo enquanto teoria: formação acadêmica
As faculdades, ou cursos universitários de Turismo, normalmente têm por objetivo a formação de seus alunos enquanto bacharéis em Turismo.
Os alunos formados saem das faculdades com breves noções operacionais (que podem ser aperfeiçoadas com a prática de estágios ainda durante o período de formação), mas, sobretudo, saem tendo como base fundamental de sua formação um pensamento crítico-holístico, voltado ao estudo teórico-prático criterioso do Turismo enquanto ‘fenômeno social’. (BARBOSA, 2001, pp. 75-79)
Eis a diferença básica fundamental entre os cursos técnicos de Turismo e as faculdades ou cursos universitários de Turismo.
Tais instituições de ensino (as faculdades) se caracterizam, justamente, por distinguirem aos seus alunos, desde o início da formação, sobre esta básica e fundamental diferença entre o que é o chamado fenômeno do Turismo (definido e entendido enquanto fenômeno em si), e o estudo desse mesmo fenômeno, isto é, o Turismo enquanto campo de estudo teórico (fenômeno social).
Alguns chamam a este último (o campo teórico), por Turismologia, ainda que este termo seja um tanto controverso. (BARBOSA, 2001, p. 81)
Os alunos formados em faculdades ou cursos universitários de Turismo, não devem (ou ao menos não deveriam), ser chamados ou se auto-intitularem Turismólogos. Há uma grande gama de bacharéis em Turismo que, nem de longe, são Turismólogos. Deve-se, sobretudo, entender o Turismólogo como aquele que busca estudar e compreender o Turismo teoricamente e enquanto fenômeno social. (http://www.partes.com.br/entrevistas/entrevistas7.asp)
Para ficar mais claro, pode-se afirmar que geógrafos, antropólogos, sociólogos, entre outros, podem ser considerados e chamados ‘Turismólogos’. Tudo vai depender de quais são suas linhas de pesquisa, e de que maneira abordam a questão do Turismo – (e insistimos) – não enquanto prática voltada exclusivamente ao lucro mas, antes, como fenômeno social e/ou cultural em constante desenvolvimento e aperfeiçoamento de suas peculiaridades. (http://www.partes.com.br/entrevistas/entrevistas7.asp)
Assim, deixar claro quais as diferenças entre os diversos profissionais que podem trabalhar no campo do Turismo, seja este encarado exclusivamente enquanto uma prática geradora de lucros, ou como um estudo teórico, levando-o em consideração enquanto fenômeno social, é um dos aspectos mais importantes desde o início do percurso dos estudos - sejam estes quais forem.
Concluindo as ideias
Para uma definição sobre o conceito inicial, aponto que o Turismo é, fundamentalmente, uma prática social e cultural. (ZUFELATO, 2009, p. 83)
Enquanto prática, ele é definido segundo a Organização Mundial do Turismo (OMT), como “[...] as atividades que as pessoas realizam durante suas viagens e permanência em lugares distintos do que vivem, por um período de tempo inferior a um ano consecutivo, com fins de lazer, negócios, e outros”.
Concomitante a isso, é considerado e chamado Turista, a pessoa que “[...] desloca-se voluntariamente por período de tempo igual ou superior a vinte e quatro horas para local diferente da sua residência e do seu trabalho sem, contudo, este deslocamento ter por motivação a obtenção de lucro” (OMT).
Por outro lado, enquanto campo teórico de estudo, o chamado fenômeno social do Turismo, pode (e deve) ser abordado enquanto estudo teórico-prático, também de um ponto de vista histórico, explicitando os aspectos sociais, ambientais, antropológicos, históricos, entre outros. Tais aspectos são relevantes à análise do Turismo, numa linha imaginária do tempo, enquanto fenômeno social e cultural produzido pelo homem e, também, conseqüência de fatores outros que não apenas o relativo ao capital de lucro.
Turismólogos têm, necessariamente, a obrigação de pensar atentamente sobre os diversos aspectos que envolvem o Turismo, seja enquanto prática ou fenômeno sócio-cultural, bem como buscar definir as diferenças dos termos e conceitos de uso corrente em seu campo de pesquisa, como busquei sumariamente fazer aqui.
Serão estes, pesquisadores sérios, competentes e engajados com todas estas questões ora levantadas, que darão origem ao que há muito se busca em termos de uma epistemologia do Turismo. Todavia, para tratar da complexa questão epistemológica do Turismo, será necessário um outro texto, o qual deixarei para um próximo momento.
G. S. Z.
gzufelato@yahoo.com.br
Referências bibliográficas:
BARBOSA, Ycarim Melgaço. O Despertar do Turismo. São Paulo: Aleph, 2001.
BENI, Mário Carlos. Análise Estrutural do Turismo. São Paulo: Senac, 2007.
ZUFELATO, Guilherme Souza. Do Caipira à “Modernidade”. São Paulo: Clube de Autores, 2009.